O Fernando Lemos me disse ano passado que todo o filho de Pastor(FDP) geralmente vira “ovelha negra”, uma pessoa revoltada. Isso se dá devido a exigência que boa parte das igrejas trata o FDP como alguém que não pode pecar, como se não fosse uma criança normal, resumindo, um “idiota padrão”.
Em maior ou menor escala, creio que todos os FDPs já passaram por alguma comparação e pressão esdrúxula por parte de vários membros de igreja, mas isso fica para outro post. Enfim, sempre pensei que no meu caso, isso não seria problemático, até porque em minha adolescência literalmente ignorei as opiniões de gente da “igreja”, queria ser um adolescente normal, me relacionar, jogar bola, “ficar” com meninas, assistir Fórmula 1 no domingo de manhã em vez de ir à EBD, brigar depois da escola, etc. Mas sempre que percebia algo que poderia comprometer o ministério do meu pai, eu fazia as coisas com discrição(isso não redime os meus pecados, pois erro é sempre erro e tem suas conseqüências).
Sempre que volto a Arraial do Cabo encontro com velhos amigos e conhecidos. Engraçado que aquelas pessoas que fizeram parte de algum momento da minha vida, principalmente na adolescência quando encontram comigo pelas ruas, geralmente começam a falar como estão suas vidas “espirituais”, frases como: “Túlio, voltei para a igreja!”, “Acertei minha vida com Deus”, “Preciso voltar para a igreja”, “Ore por mim”. Ou então entram em assuntos como: O cara acabou de engravidar a namorada, “Me divorciei”, Estou arrependido, etc.
Fato é que, depois de 25 anos percebi que as pessoas me encaram com o rótulo de FDP. Sempre achei que por buscar uma vida de uma pessoa “normal”, as pessoas me encaravam como o “super-crente”. Ninguém deve imaginar que eu gostava de “peguete” com as meninas, que eu nunca me masturbei, falei palavrão, esmurrei alguém na porrada, colei em prova, comprei playboy, tive depressão, pensei em matar um flamenguista. Lembro de inúmeras vezes onde achei a Bíblia um livro chato, que Deus não existe, não vale a pena se relacionar com ninguém, ninguém ama ninguém, a Igreja é o pior lugar do mundo onde só tem gente falsa.
Passei por fases onde meus melhores e mais sinceros amigos eram não crentes, mas minha revolta com a igreja também é tema para outro post, assim como a remissão do que é Igreja em meu coração.
Em meu coração desejo que as pessoas que encontro em Arraial não me vissem com o rótulo e simplesmente conversassem comigo coisas como, “meu filho nasceu”, “... e o Vascão?”, “vamos à praia”, etc, sem aquele olhar de culpado, de que tem de se confessas para o FDP “espiritual” quem tem a vida perfeita. Eu queria simplesmente ser tratado como um amigo, nada contra orar com as pessoas que encontro e seus problemas, mas é chato sabe!
E meu coração, gostaria que a igreja e as pessoas que fazem parte de uma comunidade cristã vivem-se mais a graça, que só é encontrada em Cristo e não em seres humanos. A graça liberta da culpa.
Graças a Deus hoje estou numa comunidade onde encontrei amigos cristãos, mas nem todos os meus amigos são cristãos, pois amizade é por amor e não por opção religiosa. Na comunidade que comungo, posso ser tratado como irmão, amigo e pecador que sempre necessitará da graça e não como santinho.
O desejo do meu coração é que essas pessoas que ainda colocam tarjas religiosas em pessoas se libertassem e descobrissem que não se pode definir e mensurar Deus, que a salvação não é por mérito, mas sim uma dádiva. Que não existe vida secular e vida espiritual, a vida é por inteiro, logo em todo o tempo é secular e espiritual. Que elas são livres para fazer escolhas e que as mesmas têm conseqüências sobre suas vidas e a de outros.
Cada cristão que recebe o Espírito Santo é seu próprio profeta, não precisa de um líder religioso pra decidir sobre sua vida, dar uma “unção” mais poderosa ou ser intermediário no contato com o divino. O líder ou uma pessoa mais experiente pode até orientar, mas a decisão é responsabilidade nossa, assim como nosso relacionamento com Deus.
A casa de Deus não é o templo, mas sim cada um que recebeu o Espírito Santo e escolheu viver com Cristo e para Cristo em todas as dimensões da vida.
Servir a Deus não tem nada a ver com trabalhar nas atividades de uma comunidade religiosa, tudo o que fazemos deve ser para Cristo. A Igreja é uma facilitadora e possui suas atividades que são voluntariamente exercidas por seus membros, mas cada cristão é responsável por manifestar o Reino de Deus na terra, com amor, justiça e paz, tanto por palavras como por ações.
Igreja é uma Comunidade de amor e não uma instituição. A instituição serve aos desígnios do Cristo da Igreja e a Igreja não deve servir a institucionalização. Se não há relacionamentos profundos na Igreja ela pode ser tudo menos Igreja.
Enfim, gostaria de todas as vezes que encontrasse com as pessoas em Arraial, fosse tratado como amigo e não como crente, FDP, padre, confessionário, etc. Mas, ainda mais do que isso, gostaria de ser instrumento para que as pessoas se libertem de conceitos e culpas e vivessem pela graça, com sinceridade de coração e sem culpa, pois eu preciso disso e todos sempre precisaremos.

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